segunda-feira, 18 de abril de 2011

Segurança no Comércio: encarar a realidade! – I

Os dados do Barómetro Nacional do Furto no Retalho da PremiValor Consulting relativos ao ano de 2009, revelaram que, entre os entrevistados no seu estudo, a quebra desconhecida se situou em 1,03% do volume de vendas, correspondendo a valores próximos dos 14.310 milhões de Euros.
Se olharmos para os dados do Global Retail Theft Barometer 2009, poderemos observar que, contrariamente ao que foi apurado no referido estudo português, registou-se entre os 41 países alvo do estudo, um aumento médio de 5,9% na quebra desconhecida, significando 1,43% das vendas globais e um prejuízo de cerca de 115 mil milhões de dólares americanos, ou seja, cerca de € 79,5 mil milhões de Euros.
No Reino Unido, os dados de 2010 da Federation of Small Businesses uma organização de pequenos retalhistas que representa cerca de 210 mil comerciantes de mais de 200 ramos de retalho distintos, revelam que 64% dos seus membros terão sido vítimas de crime em 2009.
Estima ainda que o custo médio anual do crime contra cada um dos estabelecimentos de pequeno comércio associados, terá rondado nesse período, as £ 2900 (Libras esterlinas), ou seja, € 3300 (Euros).
Se nos abstrairmos das grandes superfícies, das cadeias de franchising e de outros negócios cuja estrutura engloba uma multiplicidade de estabelecimentos e nos focarmos apenas no pequeno comércio, aquele que é tradicional, persiste no bairro, cuja loja é representativa da totalidade ou quase totalidade do investimento e do rendimento do comerciante que a explora, temos na quebra um problema cuja dimensão, ainda não é suficientemente conhecida, mas que tem certamente repercussões dramáticas para a sobrevivência do negócio e para as pessoas cuja subsistência dele dependem.
Esses comerciantes são os que trabalham com margens de lucro mais curtas, que têm menores possibilidades de balancear preços entre os artigos que vendem e que têm menos hipóteses de garantir um investimento continuado em sistemas, pessoal e dispositivos de segurança avançados, cuja utilidade é inequívoca mas nem sempre são acessíveis a todos.
Foi precisamente sobre este universo do comércio tradicional que incidiu o meu estudo, "Criminalidade e Adaptação: Percepções e Estratégias dos Comerciantes da Cidade de Elvas", uma dissertação no âmbito do Mestrado em Comportamento Desviante e Ciências Criminais da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, defendida em 2008.
Esse estudo incidiu sobre os comerciantes do comércio tradicional da cidade de Elvas, e procurou apurar (1) qual era a sua percepção relativamente aos principais problemas da sua actividade, (2) como avaliavam os riscos de vitimação por furto com arrombamento, escalamento ou chave falsa, um crime com grande impacto no momento anterior ao estudo, bem como (3) que estratégias mais frequentemente preconizavam para a prevenção destes e de outros fenómenos criminais dirigidos aos respectivos estabelecimentos.
Todas as respostas foram interessantes e reveladoras quer de percepções, quer de estratégias difusas.
Falarei um pouco delas na próxima mensagem.
Até breve!

domingo, 17 de abril de 2011

Comércio, Crise e Crime

No dia 15 de Abril de 2011, o canal televisivo SIC Notícias apresentou uma reportagem de quase 50 minutos sobre a forma como a crise está a afectar o comércio tradicional.
Fica claro na reportagem que a crise do comércio não começou hoje.

Carla Salsinha, em representação da UACS – União de Associações de Comércio e Serviços revela na reportagem, dados preocupantes sobre as insolvências e os encerramentos de estabelecimentos comerciais por todo o país durante os últimos anos.
De facto, basta ter conhecido a vitalidade do comércio das ruas das cidades de Lisboa, Porto ou Setúbal de há alguns anos, recorrendo apenas a três exemplos, para perceber que algo não está bem.

A insolvência de negócios como os que compõem o comércio tradicional e o respectivo encerramento de lojas, implica custos que não são apenas dos empresários. Existem custos sociais imediatos como o aumento do desemprego, mas há outros que se vão revelando ao longo do tempo como a progressiva desertificação de zonas urbanas, o abandono de edifícios e ruas que, por sua vez, provocará a curto prazo uma degradação do espaço urbano e, finalmente, a tomada desse território por marginais e marginalizados.

O sentimento de insegurança crescerá potenciado pelo desconhecimento dos territórios que passarão a ser vistos como inóspitos, estranhos e hostis.

Deficientes opções políticas de desenvolvimento local tenderam a dividir espaços, em vez de procurar integrar sistematicamente população, comércio e serviços.

Se bem repararem, as nossas cidades estão divididas por zonas habitacionais, de serviços, de comércio, de indústria, etc. A falência de qualquer destas divisões implica uma desertificação rápida dos locais porque não existe uma verdadeira integração e cadeia de interdependências.

O trabalho e investimento que as autoridades administrativas e policiais terão para recuperar esses territórios para a generalidade da população será imenso e não dependerá apenas de si.

Se, às fragilidades económicas mais comuns do comércio tradicional, adicionarmos a problemática da criminalidade que o atinge, teremos uma mistura que tem potencial para aniquilar rapidamente as capacidades de manutenção do negócio.
Continuarei em breve este assunto, entretanto, veja o vídeo no site da SIC Notícias aqui: